everything i own smells of you. You Could be Happy - Snow Patrol
Comecei a escrever há um tempão, mas acho que nunca vou terminar. Here it is
Comecei a escrever há um tempão, mas acho que nunca vou terminar. Here it is
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O despertador tocou. Cinco e vinte da manhã. Ainda estava escuro. Levantando-se da cama com dificuldade e fazendo barulho, foi até o banheiro. Lavou as mãos antes de urinar - era um hábito antigo, que mal percebia ter. Olhou-se no espelho.
O cabelo castanho começava a esbranquiçar. Os olhos tinham olheiras leves, sempre presentes, não importando a hora do dia. A barba tinha de ser feita. Seu pijama bege estava pequeno - ou era ele que estava grande demais? Engordara desde o noivado.
Carlos Fabiano foi até a área de serviço pegar sua toalha. Ele pendurava-a no box do banheiro, mas Rita sempre colocava-a no varal. Era um gesto delicado, mas que o irritava nos não-tão-raros dias em que já havia tirado as roupas e tinha de vesti-las novamente para ir até a área de serviço, que dava para o quintal da casa ao lado, para pegar a toalha.
Depois do banho, foi até o quarto, escuro, e pegou sua calça social predileta e uma blusa azul, ao acaso. Os sapatos ele pegaria depois - de prefêrencia, quando não fosse tão tarde para acordar Rita com a luz.
Rita. Mesmo agora, dormindo, com os cabelos emaranhados e com o pijama amarrotado, a achava linda. Não que ela fosse perfeita - era péssima jogadora de buraco, tinha gosto questionável para filmes e não gostava de azeitonas. Mas ela era o ideal. Não se importava com o fato dele sair às seis e meia da manhã e voltar às cinco da tarde. Não ligava para o fato de sua futura sogra ser extrema e intencionalmente desagradável em todas as reuniões de família. Não parecia se importar com o problema crônico do telefone - nunca estava lá quando o técnico vinha até a casa, mas estava sempre presente quando se precisava ligar para alguém.
Mas o mais importante, Rita não ligava para o fato de, não importava o quanto se esforçassem, a vida deles continuaria sendo surrada e simples, sempre com algumas prestações a pagar, sempre tendo o possível, e não o desejado. Ela estava satisfeita.
Foi até a cozinha, calçando os chinelos velhos e macios ("Você está praticamente descalço!", dizia Rita), para comer o café-da-manhã. Se havia uma refeição da qual ele gostava, certamente era o café-da-manhã. Comia dois pães de forma com manteiga e presunto, uma banana e a tradicional xícara de café preto.
Já estava claro; seis e dez. Carlos Fabiano foi até o quarto e abriu metade da janela. A visão era a mesma de todos os dias. Um bairro de casinhas antigas, reformadas aos poucos, conforme a violência e os perigos da noite aumentavam. Os habitantes eram os mesmos de cinco anos atrás, quando se mudou. A exceção, é claro, era Rita. Ela se mudara para a casa após o noivado - hoje fazia quatro meses.
A luz da janela incomodou Rita, que apenas se virou, murmurando alguma coisa inteligível. Carlos se abaixou e puxou, por debaixo da cama, a caixa onde guardava os sapatos. Era uma caixa baixa e larga que comportava cerca de doze pares de sapatos número 41. Uma de suas alças estava prestes a quebrar, e Carlos sempre dizia a si mesmo que tinha de concertá-la; contudo, tal dever logo era esquecido e apenas relembrado na manhã seguinte.
Carlos calçou os sapatos demoradamente. As costas doíam. Sentia sono e cansaço. No dia anterior ficara acordado até tarde assistindo um filme de ação dublado na televisão. Levantou-se e fechou as cortinas, que bloqueavam o volume excessivo de sol mas permitiam que o quarto continuasse iluminado. Fora Rita que havia as escolhido.
Antes de ir embora, se lembrou da conta de água que iria vencer no dia seguinte. Pegou-a em cima do armário e a colocou em sua pasta de couro, já gasta. No meio da ação, se lembrou que esquecera de escovar os dentes depois de tomar o café-da-manhã. Foi ao banheiro e escovou-os com pressa. Penteou os cabelos e limpou o nariz antes de fechar a porta do banheiro.
Agora já eram seis e vinte e Carlos Fabiano tinha de estar no ponto de ônibus em cinco minutos. Aproximou-se de Rita e deu-lhe um beijo na bochecha, desejou-lhe um bom dia e disse que ligaria na hora do almoço. Rita respondeu que na hora do almoço estaria fazendo a unha de uma cliente e que ele deveria ligar para o salão, e completou dizendo que o amava.
E ele partiu.
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